1 de nov de 2010

Livro: O País dos Petralhas

No livro "O País dos Petralhas", o jornalista e comentarista político Reinaldo Azevedo realiza uma crítica ácida e implacável à sociedade brasileira e principalmente ao governo petista, que ocupou a posição de situação nos últimos anos. 

O autor, um ferrenho crítico do presidente Lula e do Partido dos Trabalhadores, escreve um dos mais influentes blogs políticos da internet brasileira e é o criador da expressão "petralha", um jogo de palavras entre a sigla PT e os personagens da Disney conhecidos como Irmãos Metralha. 

15 de out de 2010

PT abandona as mulheres

Para garantir a vitória no segundo turno, partido renega posições históricas, como a defesa do aborto e do casamento gay - Há algum tempo que o Partido dos Trabalhadores abandonou a luta contra a opressão de mulheres, negros e homossexuais. A defesa já soava como uma mera saudação à bandeira, já que o governo não teve políticas efetivas para estes setores. Mas agora, para vencer as eleições, o partido abandona oficialmente a luta contra a opressão. Dilma Rousseff vai fazer uma ofensiva religiosa, e o PT discute a retirada da legalização do aborto do programa. O partido avalia que não venceu a eleição no primeiro turno devido ao voto evangélico e conservador, que teria migrado para a candidatura Marina (PV). O secretário de Comunicação do PT disse que “foi um erro ser pautado internamente por algumas feministas”. Com isso, a decisão do PT poderá ser um marco da ruptura definitiva com o feminismo, que cumpriu um papel importantíssimo na história deste partido. E deixa órfãs as organizações feministas governistas, como a Marcha Mundial de Mulheres.

Rasgando o programa

Dias antes das eleições, o PT já havia percebido a influência que poderiam ter as posições religiosas. No dia 29 de setembro, a campanha reuniu, em Brasília, padres e pastores com o objetivo de ganhar o apoio cristão. Agora, o PT busca conter o que chama de “boataria” contra sua candidatura. Dilma colocou-se contra até mesmo a um plebiscito sobre a descriminalização do aborto. “Plebiscito divide o país e vai todo mundo perder, seja qual for o resultado”, afirmou. Ela garantiu aos católicos e evangélicos que não irá ampliar a cobertura do Estado em casos de aborto.

Muda muita coisa? Não, apenas oficializa uma posição que já era aplicada. O governo não fez absolutamente nada para descriminalizar e legalizar o aborto. Tampouco garantiu atendimento às vítimas de procedimentos mal sucedidos. Ao contrário, desviou recursos da saúde para pagar juros das dívidas.

Em 2008, o PT foi parte da Frente Parlamentar em Defesa da Vida e Contra o Aborto, que instituiu a CPI do aborto. Esta comissão, até hoje, só serviu para incriminar as mulheres. Continuando a série de ataques, em 2009, o governo brasileiro assinou um acordo com o Vaticano em que sinalizou a intenção de investir em ações contrárias à legalização do aborto. Em 2010, o governo enterrou a possibilidade de debate sobre o tema: retirou do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3) o apoio à descriminação do aborto e as cláusulas que permitiam ampliar os casos de aborto legal.

Matando mulheres

A proibição por si só já constitui um ataque à liberdade que a mulher deveria ter sobre seu próprio corpo. As consequências desta arbitrariedade levam a uma situação desoladora. No Brasil, são realizados, em média, 1,4 milhão de abortos por ano. A morte por aborto é a terceira causa de mortalidade materna no Brasil, e as complicações são a quinta causa de internação de mulheres nos serviços públicos. Os dados são da Sempre Viva Organização Feminista.

Evidentemente, as mulheres mais atingidas são as trabalhadoras e pobres, que não podem pagar para fazer cirurgias em clínicas de qualidade, com a segurança necessária. É justamente nas regiões mais pobres do país, Norte e Nordeste, onde é registrado o maior número de mortes. Para as mulheres da burguesia, na prática, o aborto já é permitido. Segundo um estudo divulgado pelo Instituto de Medicina Social (IMS), de 2007, “a criminalização do aborto não reduziu a sua incidência, mas sim tem contribuído para aumentar a sua prática em condição de risco com impactos graves para a saúde e a vida das mulheres”. O aborto é um problema de democracia, de saúde e social.

Para padres e pastores, Dilma disse ser a favor da vida. Na prática, ela entrega à morte centenas de milhares de mulheres trabalhadoras e pobres. Respeitamos imensamente as crenças individuais, mas não hesitamos em dizer: neste tema, as instituições religiosas são contra a vida. Sob o argumento de defesa da vida, deixam milhões de mulheres pobres e trabalhadoras morrerem em função de abortos mal feitos.

Um Estado laico?

O que pode parecer apenas uma disputa eleitoral representa um retrocesso que terá implicações gravíssimas sobre a consciência dos brasileiros. Subordinar o Estado a preceitos religiosos é voltar à Idade Média. Só falta queimar as mulheres que abortam numa fogueira.

A principal recomendação conclusiva do estudo do IMS foi justamente “a busca de soluções eficazes no âmbito da saúde pública, sem interferência de dogmas religiosos”. O governo Lula é responsável direto por este retrocesso. O “respeito às diferentes crenças, liberdade de culto e garantia da laicidade do Estado” foi uma das cláusulas excluídas do PNDH 3. Quanto a Serra, este nunca teve compromisso com as trabalhadoras. Antes mesmo de a campanha começar, em maio de 2010, afirmou: “Eu não sou a favor do aborto. Não sou a favor de mexer na legislação”.

Já Marina cresceu nas eleições, em parte por ser contra a legalização do aborto. E é difícil acreditar até mesmo em sua proposta de plebiscito sobre o tema. Marina historicamente condena o aborto e esta proposta serve como forma de escapar do debate.

Mulheres e mulheres

Não basta ser mulher. Aliás, quem não lembra de Marta Suplicy retirando de seu programa a união civil homossexual para tentar se eleger prefeita de São Paulo? Ou sua campanha, num gesto de desespero, questionar a opção sexual do adversário, Kassab? A campanha foi um divisor de águas e marcou um giro do PT, que veio se completar com a dobradinha para o Senado com Netinho, agressor de mulheres, e agora, com o triste abandono da defesa do aborto e do casamento gay.

A luta feminista é necessariamente de classe. Às mulheres burguesas, tudo é permitido, tudo se compra. Nós, mulheres do PSTU, acreditamos na força das mulheres trabalhadoras unidas, independente de governo e patrões. Apoiamos e construímos o Movimento Mulheres em Luta. Nós nos orgulhamos de ter em nosso programa a defesa da legalização e descriminalização do aborto, defendida por nosso candidato à Presidência, Zé Maria, e por todos os outros candidatos no primeiro turno.

Não mudamos de lado. Vamos continuar defendendo o mesmo programa depois das eleições. Para a defesa dos direitos das mulheres, negros e homossexuais, nem Serra, nem Dilma. O voto contra o conservadorismo, no segundo turno, é o voto nulo.


Ana Luiza - Candidata ao Senado em São Paulo, fez uma campanha contra a violência às mulheres, conquistando 109 mil votos.

2 de out de 2010

Que estejamos errados!



Hélio Bicudo é um dos mais respeitados juristas brasileiros. Um dos fundadores do PT, desfiliou-se em 2005.

Prezado visitante, seria muito bom que assistíssemos ao vídeo acima antes de conversarmos brevemente sobre o desfecho da corrida eleitoral que se aproxima. Sinto-me à vontade para tratar do assunto uma vez que sempre fui eleitor de Lula: contra Collor, em 1989, contra FHC, em 1994, e, novamente, contra FHC, em 1998.

E, confesso, em 2002 tive sérias dúvidas acerca de qual candidato – Lula ou Serra – corresponderia melhor às necessidades do país. Vacilei em favor de Lula e o arrependimento foi imenso. Não que o neoliberalismo de FHC e Serra representassem o modelo político-econômico dos meus sonhos, não mesmo. Para mim, um jovem estudante universitário envolvido por duas vezes com o movimento estudantil - na UERJ (Matemática) e na UFRJ (Direito) –, leitor apaixonado de Os Carbonários, de Alfredo Sirkis e, mais tarde, um petroleiro engajado no movimento sindical e filiado à Convergência Socialista, um dos braços mais radicais do PT, o neoliberalismo realmente não me satisfazia. Hoje, um pouco mais vivido, travo batalha sangrenta contra corruptos ligados ao PT, mas que não nos interessam no momento.

Ao contrário, embora relativamente satisfeito com as conquistas econômicas dos oito anos do governo de FHC, meu voto em Lula no ano de 2002 foi acreditando que, diante da estabilidade econômica e institucional que vivíamos, o país já estaria suficientemente preparado para mudanças sociais mais radicais, prometidas por Lula e pelo PT havia décadas. Daí minha infeliz opção nas urnas. Acreditei, erroneamente, que Lula tornaria possíveis alterações estruturais na distribuição de riqueza, cultura e renda para uma parcela mais ampla dos brasileiros. Os meus temores, desapontamentos e decepções vividos durante minha experiência no movimento estudantil, sindical e partidário tornaram-se realidade: os seres mais abjetos e corruptos que conheci durante os anos anteriores chegaram ao poder e transformaram nossos sonhos democráticos numa grande farsa de manipulação popular para enriquecimento ilícito de oportunistas.

Nos oito anos de governo Lula, o que verifiquei, inclusive na própria pele, foi que o governo transformou-se no maior pesadelo fascista já vivido na história recente do Brasil. O populismo infantil, a manipulação das massas ignorantes e empobrecidas, mediante o fornecimento de bolsas diversas, a utilização dos órgãos públicos como escritórios de negócios particulares, a invasão de cargos técnicos por néscios politicamente indicados, a corrupção espalhada em todos os níveis do governo, o desrespeito aos mais comezinhos princípios democráticos previstos na Constituição, o descaso para com as decisões dos poderes legislativo e judiciário, o fomento às invasões e destruições de propriedades agrícolas produtivas, as sistemáticas tentativas camufladas de censura aos meios de comunicação e muitas outras razões levaram-me a abandonar, definitivamente, qualquer tentativa de diálogo com quem quer que tente defender o governo do mensalão, da instabilidade jurídica, da mentira e da truculência.

Causa-me espécie que pessoas de minha estima, algumas delas consideradas amigas, manifestem seu voto em Dilma, uma terrorista extremamente ignorante, oportunista e despreparada. Não quero crer em fisiologismo, demagogia, oportunismo ou mero partidarismo de suas partes. Algumas, pelo muito ou pelo pouco que conheço, são pessoas distintas, honestas, cultas e bem informadas. Como podem votar em pessoa e partido associados a Collor, Sarney, Jader Barbalho, José Dirceu e tantos outros tumores políticos que tanto estrago vêm causando ao já tão debilitado organismo brasileiro?

Acontecendo o pior, só espero estar errado. Espero que todos os inúmeros casos de corrupção e incompetência anunciados pelos meios de comunicação sejam intrigas da oposição. Espero que as esmolas fornecidas pelo governo à população mais carente possam cessar, que as escolas e os professores recebam enfim a atenção que merecem, que as instituições democráticas possam sobreviver a mais quatro anos de desmandos, imperícia técnica, corrupção e populismo ignóbil.

10 de jun de 2010

Carta de desfiliação de Sandra Starling do PT

Ao tempo em que lutávamos para fundar o PT e apoiar o sindicalismo ainda “autêntico” pelo Brasil afora, aprendi a expressão que intitula este artigo. Era repetida a boca pequena pela peãozada, nas portas de fábricas ou em reuniões, quase clandestinas, para designar a opressão que pesava sobre eles dentro das empresas.Tantos anos mais tarde e vejo a mesma frase estampada em um blog jornalístico como conselho aos petistas diante da decisão tomada pela Direção Nacional, sob o patrocínio de Lula e sua candidata, para impor uma chapa comum PMDB/PT nas eleições deste ano em Minas Gerais. É com o coração partido e lágrimas nos olhos que repudio essa frase e ouso afirmar que, talvez, eu não tenha mesmo juízo, mas não me curvarei à imposição de quem quer que seja dentro daquele que foi meu partido por tantos e tantos anos. Ajudei a fundá-lo, com muito sacrifício pessoal; tive a honra de ser a sua primeira candidata ao governo de Minas Gerais em 1982. Lá se vão vinte e oito anos! Tudo era alegria, coragem, audácia para aquele amontoado de gente de todo jeito: pobres, remediados, intelectuais, trabalhadores rurais, operários, desempregados, professores, estudantes. Íamos de casa em casa tentando convencer as pessoas a se filiarem a um partido que nascia sem dono, “de baixo para cima”, dando “vez e voz” aos trabalhadores.

Nossa crença abrigava a coragem de ser inocente e proclamar nossa pureza diante da política tradicional. Vendíamos estrelinhas de plástico para não receber doações empresariais. Pedíamos que todos contribuíssem espontaneamente para um partido que nascia para não devermos nada aos tubarões. Em Minas tivemos a ousadia de lançar uma mulher para candidata ao Governo e um negro, operário, como candidato ao Senado. E em Minas (antes, como talvez agora) jogava-se a partida decisiva para os rumos do País naquela época. Ali se forjava a transição pactuada, que segue sendo pacto para transição alguma. Recordo tudo isso apenas para compartilhar as imagens que rondam minha tristeza. Não sou daqueles que pensam que, antes, éramos perfeitos. Reconheço erros e me dispus inúmeras vezes a superá-los. Isso me fez ficar no partido depois de experiências dolorosas que culminaram com a necessidade de me defender de uma absurda insinuação de falsidade ideológica, partida da língua de um aloprado que a usou, sem sucesso, como espada para me caluniar.

Pensei que ficaria no PT até meu último dia de vida. Mas não aceito fazer parte de uma farsa: participei de uma prévia para escolher um candidato petista ao governo, sem que se colocasse a hipótese de aliança com o PMDB. Prevalece, agora, a vontade dos de cima. Trocando em miúdos, vejo que é hora de, mais uma vez, parafrasear Chico Buarque: “Eu bato o portão sem fazer alarde. Eu levo a carteira de identidade. Uma saideira, muita saudade. E a leve impressão de que já vou tarde.”

Sandra Starling